Explicando a legenda da capa

Explicando a legenda da capa da transcrição

Explicando a legenda da capa.

Explicando a legenda da capa? Sim.

Para a sinalização de ocorrências de fala, os elementos de transcrição podem ser usados em conjunto. É frequente marcarmos uma ininteligência combinando vários elementos.

Exemplo: (inint) [00:01:04] ((sobreposição de falas))

No exemplo acima, tentou-se explicar ao leitor que ocorreu uma ininteligência ao tempo de 1 minuto e 4 segurados porque houve uma sobreposição de falas, que ocorre como comentário do analista sempre sinalizado por parênteses duplos.

 

Legenda

Você se lembra da legenda apresentada anteriormente? Vamos repetir a informação para explicar cada elemento.

… = micropausa ou interrupção ou alongamento vocálico.

[…] = demonstração de corte em trechos não relevantes.

(inint) = palavra ou trecho que não conseguimos entender.

(palavra 1 / palavra 2) = hipótese de palavra e/ou hipótese fonográfica.

((palavra)) = comentários da transcrição ou onomatopeias.

Passamos a explicar cada um dos elementos da legenda.

 

As reticências “…”

Não é à toa que as reticências aparecem em primeiro lugar na legenda. Para nós, transcritores, elas são as estrelas de uma transcrição, pois têm o potencial de representar várias ocorrências de fala.

Mcropausas silenciosas

Micropausas são aqueles pequenos silêncios de meio segundo ou mais em que normalmente ocorre um reordenamento das ideias. Elas podem ser silenciosas ou mudas. Meio segundo em uma fala pode parecer uma eternidade. Pausas maiores que isso, então, são a eternidade. A transcrição formal exige que cada meio segundo seja sinalizado, (0.5) ou (1.0) e assim, por diante.

Em nossa metodologia adotamos usar “…” até 1.5 segundos, de 2 segundos para frente recorremos ao comentário do transcritor, conforme veremos mais para frente.

Interrupções

Quando alguém está falando e não consegue terminar a frase porque sofreu uma interrupção, a reticências é uma solução interessante. Na transcrição formal, o elemento “/” sinaliza as cortadas que o falante dá ou as cortadas que o falante recebe.

Micropausas sonoras

É o que chamamos de alongamentos vocálicos, em que se representam as famosas hesitações. Eh… a… o… do… da… das… ah… (representando o “a” alongado de compreensão de alguma colocação ou ideia). Normalmente são utilizadas no final. Na verdade os alongamentos que ocorrem no meio das palavras são representados por “:” na transcrição formal. Podem ser tanto vocálicos como consonantais. Exemplo, “aquele ca::ra me roubou o me::u dinheiro. Era me::u”.

 

Demonstração de corte “[…]”

Temos um princípio de que em uma transcrição nenhuma palavra ou meia palavra deve ser cortada. Mas, é permitido cortar sim, desde que o cliente o permita.

Pode ocorrer que uma entrevista sofra interrupções por um telefonema de celular ou algum garçon que entra na sala para servir um café e pergunta se o pesquisador aceita açúcar ou adoçante.

Ou ainda o gato de estimação da residência do entrevistado sobe no colo do pesquisador que se surpreende e elogia o bichano. Mesmo que deteste gatos.

Nestes casos em que nada se acrescenta de valor à transcrição, então é “[…]” que resolve tudo isso. Podemos usar também para palavras incompletas que devem ser cortadas, se assim o cliente permitir.

 

Ininteligência “(inint)”

As ininteligências são trechos que não conseguimos entender por vários motivos. Por exemplo, o ruído de um jato passando enquanto está se fazendo a entrevista, ou uma moto ou caminhão, uma ferramenta elétrica ou qualquer ou qualquer outra ocorrência pode interferir na compreensão da fala.

Nesses casos recorremos à marcação (inint).

Hipótese de fala “(palavra)”

Quando não temos certeza de que palavra foi dita, grafamos entre parênteses para sinalizar nossa dúvida e a nossa hipótese de escuta, pois transcrever não deixa de ser uma interpretação de cunho pessoal.

(palavra 1 / palavra 2) representam as hipóteses respectivamente do revisor e do transcritor. A palavra 1 é a hipótese do revisor, que neste caso mostra que ele mesmo se encontra em dúvida e não descartou a hipótese de escuta do transcritor. Isso torna o trabalho mais rico.

Comentários do analista “((comentário))”

Os comentários do transcritor ou do revisor ou ainda do pesquisador são representados por parênteses duplos. Eles também podem representar onomatopeias ou ocorrências especiais.

((silêncio))

Utilizado para marcar silêncio maior ou igual a 2 segundos. Em uma fala, o silêncio é significativo. Pode haver momentos em que as pessoas se emocionam ao dar seu depoimento. Ou então há uma profunda dúvida.

Assim, podemos marcar ((silêncio)) em vez de supor ((hesitou)) ou ((ficou em dúvida)) pois o primeiro é um elemento neutro, fugindo da interpretação, permitindo um registro neutro.

((sobreposição de falas))

Utilizamos quando há sobreposições em que não é possível entender o que duas pessoas estão falando naquele momento. Convém utilizar com parcimônia esse recurso, pois 90 por cento das sobreposições podem ser entendidas. Seu uso excessivo pode ser interpretado como desleixo.

((interrupção))

Podemos usar essa marcação em vez de ((alguém entrou na sala)) ((garçon serviu café)) ((atendeu telefone)) pois é muito comum a entrevista ocorrer em ambiente de trabalho e a entrevista ser interrompida várias vezes.

Outros exemplos são: ((♫)) Atirei o pau no gato… para indicar que começou a cantar.

((toc)) ((toc)) ((toc)) representando onomatopeia.

((cof)) ((cof)) para representar tosse, se a entrevista se referir a doença relacionado ao pulmão, uma gripe ou uma tuberculose, por exemplo.

((tap)) ((tap)) ((tap)) para indicar que bateu as mãos, ou ((clap)) ((clap)) ou ((aplausos)) o uso é variado e todos são possíveis de serem utilizados enriquecendo a produção da transcrição.

O bom senso é fundamental no uso de comentários.